DOENTES POR FUTEBOL

O Jogo do Bom Senso

Bom Senso visita a CPF | Foto: Divulgação

Bom Senso visita a CBF | Foto: Divulgação

Uma novidade que soa incrível: o Bom Senso visitou a CBF. Visita rápida: entrou e saiu. Não foi propriamente acolhido. Foi tolerado na sua rápida passagem. Bom, já é um progresso. Mas não deu pra esconder que sua breve estadia causou preocupação. E constrangimento. Por mais que disfarçassem, ficou claro o incômodo sentido pelos cartolas. Eles ouviram as ponderações do Bom Senso, fizeram vagas promessas, mas no fim das contas quase nada lhe concederam. Vê-se bem que o consideram importuno. Estabeleceram um prazo para que o Bom Senso voltasse. Não para ficar, é claro. Lá prevalece a Insensatez. Em todo o caso, admitem dar um pouco de atenção ao visitante inesperado. Desde que não demore, nem queira se impor.

Espera-se que o Bom Senso procure também o Ministério dos Esportes. Mas receio que nesse campo de governo o tratem com desapreço ainda maior, ou mesmo com hostilidade. O mais provável é que sequer o recebam na bisonha instituição. A maneira como Aldo Rebelo tem tratado dos assuntos de sua pasta já deixou claro para toda a humanidade que ele é profundamente alérgico ao bom senso. É à FIFA que presta culto.

Os leitores já perceberam que estou tratando do Movimento criado por um grupo notável de craques do nosso futebol. O nome foi bem achado. É mais do que justo. Esses atletas não reivindicam nada de extraordinário. Querem simplesmente o devido, o correto, o justo, o necessário para que sua profissão se normalize, para que nosso futebol tome jeito, se cure de suas crises, se aprume e se desenvolva. O extraordinário está justamente nisso: no fato de que seja preciso pedir o que eles solicitam, fazer campanha, reclamar o líquido e certo. Fica assim evidenciado o abuso que predomina nesse âmbito.

Quem ignora o descalabro de nossos calendários esportivos? Eles ofendem os direitos mais elementares dos atletas à preservação de sua saúde e à garantia de suas condições de trabalho. Atentam contra a qualidade do desempenho dos craques, sujeitos a uma exploração brutal. Comprometem o futebol. São um primor de estupidez. Qualquer pessoa com um pouco de tino logo se dá conta de que levar à exaustão os jogadores resulta em queda do seu rendimento. E que isso empobrece o jogo, afasta o público, prejudica a todos. Porém os calendários conseguem ser mais absrudos ainda: estafantes para alguns atletas e clubes, insuficientes para outros. Um duplo desequilíbrio, uma aberração evidente.

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Atletas unidos pelo Bom Senso | Foto: Reprodução

O problema da estafa é sério. O jogador não tem tempo de recuperar-se. Mal sai de um partida já está treinando para outra. Como diz o Alex, no Brasil o jogador não vive, só joga futebol. Impossível ter regularidade de desempenho nessas condições.

O espantoso é que se tenha demorado tanto a perceber o óbvio. Foi preciso que os próprios jogadores se queixassem da baixa qualidade técnica dos espetáculos de que eles são protagonistas. Ao acusar essa situação, mostraram profunda dignidade profissional. Eles querem jogar bem, para isso se empenham. É tudo que desejam. Mas sentem-se frustrados em face das condições que lhes dão. Os dirigentes ainda não perceberam a insanidade da sua política, o absurdo de matar a galinha dos ovos de ouro.

Tampouco se pode contestar a justiça de outras reivindicações feitas pelos atletas. Fair play financeiro deveria ser a praxe, o natural. Sucede, porém, que na CBF e na imensa maioria dos nossos clubes o natural não está na moda: há muito foi rebaixado, desativado, desmoralizado.

Houve, sim, alguns avanços. Trinta dias de férias foram garantidos (dá até vergonha dizer que isso é um avanço: em um país sério, em pleno século XXI, não seria preciso lutar por essa conquista). A CBF prometeu adiar o início das competições de 2014 para 19 de janeiro em todos os estados que tenham clubes na Série A. E até mesmo a TV Globo procurou ser razoável, abrindo mão de futebol em janeiro. Razoável com moderação, é claro.

Pequenos vitórias. De qualquer modo, servem para animar. O Movimento Bom Senso tem-se armado de paciência, lhaneza, boa vontade. Procura o diálogo. Mas tem os olhos abertos. Não pode ser iludido. Suas reivindicações são legítimas, contemplam o interesse dos jogadores e do público. Os próprios clubes sairão lucrando se for feito o esforço de modernização reclamado.

O problema é a resistência sistemática de nossos cartolas a tudo que é digno, justo, racional e salutar. Mas convém que eles acordem. Não dá para desprezar o Bom Senso, voltar-lhe as costas, lutar contra ele a vida inteira. Se continua desse jeito, o futebol brasileiro vai para o buraco. Seria uma perda para o mundo todo.

Atletas como Alex, Juan, Paulo André, a turma toda do Bom Senso, revelaram-se craques de cidadania, bom exemplo para todos. Nós, torcedores, devemos apoiá-los com todas as forças. Também somos prejudicados pelo atual sistema. Que é maluco mesmo. Quem tem condições de ir ao estádio três vezes por semana? Quantos podem pagar os ingressos inflacionados nas arenas de luxo? Está certo impor os horários tardios em que as partidas se realizam para gáudio da Globo? Será que acham isso conveniente para o frequentador?

Creio que não foi mera coincidência a aparição deste movimento pouco depois das campanhas de junho. Nossos atletas despertaram, começaram a cobrar o indispensável, o correto, o legítimo.

O esbulho que FIFA, CBF e Governo praticaram contra o nosso povo a pretexto da Copa do Mundo foi e continua sendo feroz, profundamente criminoso. Mas a reação das ruas impediu que as coisas ficassem ainda piores. No Rio de Janeiro, por exemplo, os protestos impediram que viessem abaixo os estádios Célio de Barros e Júlio Delamare, a Escola Friedenreich e o Museu do Índio. A prefeitura os queria demolir para maior lucro do consórcio milionário que administra o Maracanã (a Bahia teve menos sorte: bem antes, o governo vândalo de meu pobre estado demoliu o complexo olímpico da Fonte Nova e deixou os atletas a ver navios, comprometendo-se, ainda por cima, a garantir com dinheiro público, durante trinta e cinco anos, os lucros de Odebrecht e OAS, empresas que edificaram a nova arena para seu próprio desfrute). O rombo foi grande, mas os rapinantes não vão ter sossego. Em várias cidades do país, organizações sociais acionaram o Ministério Público e promovem campanhas em prol da transparência, exigindo a apuração dos muitos desmandos já praticados nesse contexto. Sua vigilância é é que pode impor um freio à pirataria.

Não podemos cair na conversa dos cartolas, admitir suas palhaçadas. A defesa do futebol brasileiro quem faz são os atletas lúcidos, os torcedores esclarecidos. A atitude patética de Marin ameaçando processar Diego Costa foi uma vergonhosa exibição de cinismo. Do modo como dirige a entidade que herdou das mãos sujas de Ricardo Teixeira, ele, sim, é quem demonstra falta de apreço pelo Brasil. Diego Costa apenas exerceu um direito ao optar pela cidadania e pela seleção espanhola. Torço para que nosso time derrote o seu, mas não vejo motivo para condená-lo. Direito é direito. Quem não respeita a liberdade alheia faz pouco caso da sua.

Diego Costa | Foto: Getty Images

Diego Costa | Foto: Getty Images

A propósito, a queixa bisonha de Felipão foi temperada de falsidade: se querer jogar pelo escrete da Espanha fosse crime de lesa pátria, ser técnico do escrete português também não o seria? No seu posto, naquela época, deliberada e conscientemente ele correu o risco de usar sua perícia de treinador contra a nossa seleção. Se o escrete luso e o brasileiro se enfrentassem, ele na certa faria tudo para derrotar o Brasil. Por que agora condena Diego Costa? Sua atitude é inexplicável e insustentável. Por isso mesmo, só lhe restou ser grosseiro com o jornalista que lhe colocou essa questão.

Marin foi mais longe. Comportou-se de modo histriônico, indigno, estapafúrdio. Foi tipicamente Marin.



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Graduado em Letras pela UNB, Mestre em Antropologia Social pela UNB e Doutor em Antropologia pela USP. Professor Associado do Departamento de Antropologia da FFCH / UFBA. Professor Permanente do Programa de Pós-Graduação em Antropologia da UFBA; Prof. participante do Programa de Pós-Graduação em Saúde Coletiva e do Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais da UFBA. Membro da Associação Brasileira de Antropologia, da SBPC, da Sociedade Brasileira de Estudos Clássicos e da Sociedade Brasileira de Etnobiologia e Etnoecologia. Membro fundador do Grupo de Pesquisa “Encruzilhada dos Saberes”. Fundador e Coordenador do Grupo Hermes de Pesquisa e Promoção Social e do Movimento Vozes de Salvador. Produção principal em Antropologia da Religião, Antropologia das Sociedades Clássicas, Etnobotânica, Teoria Antropológica. Tradutor de textos científicos e literários. Escritor premiado três vezes em concursos nacionais de literatura, com obras de ficção (conto, novela).